A empresa paulista ZEG usa tecnologia e ações socioambientais para proteger 14 mil hectares em Caracaraí. O modelo cria alternativas produtivas para manter vegetação nativa e ganhar competitividade no mercado de carbono.
No município de Caracaraí, em Roraima, um modelo de conservação aliou inovação tecnológica e ações socioambientais para garantir longevidade e competitividade no mercado de carbono em uma área de 14 mil hectares. A iniciativa foi levada a campo pela empresa paulista ZEG (Zero Emission Goal) como alternativa produtiva para manter vegetação nativa sob pressão do desmatamento legal.
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O projeto se encaixou em um contexto legal específico: o Código Florestal (Lei 12.651/2012) prevê que estados como Roraima podem reduzir a reserva legal do bioma mediante zoneamento ecológico-econômico. No caso da área em Caracaraí, de bioma amazônico, a reserva legal seria de 80% dos 14 mil hectares, mas o zoneamento concluído em 2022 permitiu ao proprietário o direito de desmatar metade da área para plantar soja.
Segundo o diretor-presidente da ZEG, Carlos Jacob, a área pertence a um produtor rural de soja de Goiás que havia solicitado ao Estado autorização para supressão legal da vegetação. A empresa entrou em contato com o proprietário e apresentou uma alternativa ao desmate.
“O proprietário comprou essa área logo depois que Roraima passou por uma redução da reserva legal”
O modelo proposto combinou investimentos em tecnologia de monitoramento e prevenção de incêndio, programa socioambiental voltado às comunidades coletoras de castanha-do-Pará do entorno e todo o processo de certificação dos estoques de carbono existentes. Com a aprovação do proprietário, houve trabalho de segurança jurídica para remontagem da cadeia dominial da propriedade e a cessão do direito real de superfície por 40 anos, prazo do contrato para comercialização dos estoques de carbono.
“A gente ficou sabendo que ele estava com esse pedido de supressão da área. Então, a gente contatou o produtor e no começo ele ficou bastante com dúvidas se esse era o caminho a seguir, mas ele acreditou no nosso projeto e decidiu embarcar”
Segundo Jacob, o movimento ocorreu após o colapso do mercado de conservação entre 2021 e 2023, causado por números de mitigação superestimados e comercialização de estoques sobrepostos a terras públicas, o que exigiu uma estratégia mais robusta de credibilidade para atrair investidores.
“Foi quando a gente entendeu que tinha que entrar no mercado de conservação para fazer diferente”
Na parte operacional, a área recebeu uma torre de 60 metros equipada com câmera e programa de inteligência artificial capaz de identificar focos de incêndio e alertar a equipe de campo em tempo reduzido. O coordenador de operações de campo da ZEG, Cineone Silva, detalhou o funcionamento do sistema e a logística de ação rápida.
“A gente consegue saber em tempo recorde, dentro dos três minutos que a câmera leva para dar um giro de 360 graus. Chega para a gente um relatório, que mostra exatamente onde está acontecendo o foco de incêndio, e a gente coloca a equipe de campo para ir até o local”
Toda a equipe local, composta por 20 pessoas, passou por treinamento da brigada de incêndio interna. Duas áreas de assentamento vizinhas também atualizaram o treinamento em suas brigadas comunitárias, ampliando a capacidade de resposta na região.
A ação preservou a floresta em pé e manteve atividades de extrativismo para cerca de 36 famílias que vivem nos assentamentos vizinhos, cuja renda inclui a coleta da castanha-do-Pará. Um morador relatou as mudanças trazidas pelo avanço do agronegócio e o alívio ao ver a possibilidade de continuar a atividade extrativista.
“Eu nasci e me criei nesse estado e, nos últimos 15 anos, eu vi a transformação com a entrada do agronegócio aqui na região, com o plantio de soja e mais veneno que a gente não tinha. Quando venderam esse lugar, a gente imaginou também que não ia mais poder coletar”
A parceria com a comunidade também resultou no fortalecimento da atividade por meio de capacitação e apoio para a constituição da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar). Trabalhando em conjunto, as famílias buscaram melhores condições de comercialização na última safra.
“Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor”
O projeto em Caracaraí aposta em combinar tecnologia, segurança jurídica e inclusão comunitária para competir no mercado de carbono sem abrir mão da conservação e da atividade extrativista local.

