O sorteio dos grupos da Copa do Mundo, marcado para as 14h (horário de Brasília) desta sexta-feira (5), definirá o caminho das 42 seleções já garantidas no torneio. Outras seis vagas serão preenchidas em março. Além dos aspectos esportivos, a cerimônia abre a possibilidade de confrontos que carregam tensões diplomáticas, disputas territoriais ou laços coloniais.
Estados Unidos x Irã
Sem relações diplomáticas desde 1980, Washington e Teerã vivem novo período de atrito, agravado após o retorno de Donald Trump à Casa Branca e pela escalada de conflitos no Oriente Médio. A emissão de vistos para iranianos tornou-se tema sensível: parte da delegação ameaçou boicotar o sorteio depois de ter a entrada negada, mas recuou na véspera do evento.
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O governo norte-americano promete facilidades para atletas, jornalistas e torcedores, embora persista desconfiança entre os iranianos. Veículos mexicanos sugeriram que a Fifa colocaria o Irã no Grupo A, ao lado do México, para evitar jogos em solo estadunidense. A entidade não confirma a informação, mantendo aberta a chance de repetição dos duelos vistos em 1998 e 2022.
Inglaterra x Escócia
A rivalidade mais antiga do futebol começou em 1872, mas seus contornos extrapolam o gramado desde as Guerras de Independência escocesas, nos séculos XIII e XIV. Unidos politicamente em 1707, os dois países convivem com o fortalecimento do movimento pela separação, liderado pelo Partido Nacional Escocês (SNP).
Em 2014, 55% dos eleitores barraram a ruptura; dois anos depois, o Brexit reacendeu a discussão, já que 68% dos escoceses votaram pela permanência na União Europeia. Em caso de encontro na fase de grupos, as vaias ao hino britânico “God Save The King” – ouvidas em amistoso de 2023 – voltariam a ser tema. Nos Mundiais, a Escócia adota o cântico não oficial “Flower of Scotland”.
Espanha x Marrocos
Separados por 13 km no ponto mais estreito do Estreito de Gibraltar, os dois países disputam influência em Ceuta e Melilla, cidades geograficamente marroquinas mas administradas pela Espanha. Rabat define as áreas como “territórios ocupados”.
A fronteira também concentra debates sobre imigração: em 2021, Madri acusou Marrocos de usar menores para pressionar a entrada de migrantes. No Saara Ocidental, as tensões diminuíram após recente acordo de cooperação.
Dentro de campo, o confronto ganhou novo capítulo quando Marrocos eliminou a Espanha nas oitavas de final de 2022. A disputa por talentos é frequente: Achraf Hakimi e Brahim Díaz optaram pela seleção africana, enquanto Lamine Yamal seguiu com a europeia.
Holanda x Curaçao
Diferentemente dos exemplos anteriores, este possível duelo envolve parceiros históricos. Curaçao tornou-se país constituinte do Reino dos Países Baixos em 2010, mantendo autonomia interna, mas delegando a Haia responsabilidades por política externa, defesa e direitos humanos.
A interdependência é visível na seleção caribenha: a maioria dos atletas que garantiram a inédita vaga na Copa nasceu em território holandês. Caso as bolinhas coloquem as duas equipes no mesmo grupo, o torneio terá o encontro com laços mais estreitos de sua história.
Confrontos vetados pela Uefa
A Fifa não impõe restrições formais, porém respeita decisões das confederações. Em outubro, a Uefa reafirmou seis duelos proibidos em suas competições: Armênia x Azerbaijão, Ucrânia x Rússia, Espanha x Gibraltar, além de confrontos do Kosovo contra Sérvia, Bósnia-Herzegóvina e Rússia. Nenhum deles poderá ocorrer na fase de grupos do Mundial.
Para que algum desses embates aconteça na Copa de 2026, Bósnia-Herzegóvina ou Kosovo precisariam avançar pela repescagem europeia e só se encontrariam em fases eliminatórias.
O sorteio desta sexta-feira, portanto, pode ir muito além da definição de chaves. Ao mesmo tempo em que delineará o caminho para o título, o evento também poderá colocar frente a frente seleções cujos países carregam rivalidades históricas ou laços estreitos, transformando o Mundial em palco de narrativas que extrapolam o futebol.


