Levantamento do Instituto Vladimir Herzog calcula R$349 milhões em despesas da PM, Polícia Técnico-Científica e do Judiciário entre 2023 e 2024. As operações provocaram 84 mortes, 82% entre homens negros e de baixa renda.
As Operações Escudo e Verão, implementadas em resposta ao crime organizado após a morte de policiais militares na Baixada Santista, custaram mais de R$ 349 milhões aos cofres públicos de São Paulo, conforme levantamento realizado pelo Instituto Vladimir Herzog.
📖 Leia Também
O estudo considera as despesas da Polícia Militar, da Polícia Técnico-Científica e dos sistemas de Justiça Paulista. As operações ocorreram entre 2023 e 2024 e resultaram em 84 mortes, sendo 82% das vítimas homens, negros e de baixa renda.
De acordo com o relatório, parte dos recursos financeiros foi utilizada em ações de segurança e procedimentos pós-morte, como investigações e perícias. Os pesquisadores que elaboraram o estudo enviaram ofícios e buscaram dados no site de transparência do estado, envolvendo órgãos como a Polícia Civil, Ministério Público, Tribunal de Justiça, Defensoria Pública, Polícia Militar e Secretaria de Administração Prisional.
Focando na Polícia Militar, o documento revela que a operação consumiu aproximadamente 1% do orçamento liquidado em 2023 pela corporação. Mais de 7,9 mil policiais participaram das ações, e os gastos com armamentos e materiais operacionais para os militares foram estimados em R$ 4.461.572,55.
“As ações mobilizaram um volume massivo de recursos públicos para produzir morte, encarceramento em massa e sofrimento social”, aponta o Instituto.
A Operação Escudo foi deflagrada em julho de 2023, após a morte do policial da Rota, Patrick Bastos Reis, no Guarujá. A segunda fase, chamada Operação Verão, teve início no começo de 2024, após a morte de outros policiais militares. O governo de São Paulo afirmou que as operações visavam combater o tráfico de drogas e o crime organizado.
Em janeiro de 2026, a Defensoria Pública de São Paulo, em parceria com a Conectas Direitos Humanos, denunciou o Brasil à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) devido a graves violações de direitos humanos durante as operações.
O levantamento também incluiu dados das investigações da Polícia Civil e do Ministério Público. Segundo o relatório, o número de denúncias registradas e agentes responsabilizados é desproporcional ao número de mortes. Apesar das apurações, as versões das famílias das vítimas não tiveram peso nas investigações.
Das denúncias que avançaram na Justiça, apenas quatro policiais da Rota foram tornados réus pelo assassinato de dois homens, e cinco outros por quatro mortes. Dentre 23 casos, pelo menos 17 foram arquivados pelo Ministério Público, e nenhum dos agentes envolvidos foi denunciado.
O relatório menciona ainda o assassinato de um homem de 33 anos, registrado por câmeras corporais dos policiais, sem que fosse encontrada arma com a vítima. Nenhum dos envolvidos foi responsabilizado. O documento conclui que a operação, sem base investigativa legítima, se tornou um símbolo da banalização da morte e da ausência de responsabilização do Estado.
“A operação tornou-se símbolo da banalização da morte e da ausência de responsabilização do Estado”, destaca o relatório.
Em resposta, o governo de São Paulo declarou que todas as mortes foram devidamente investigadas e que ações contínuas estão sendo mantidas para preservar vidas, com investimento em treinamento e tecnologia para aumentar a eficiência das ações de segurança pública.

