Um empate histórico contra a Espanha transformou Cabo Verde em sensação do Mundial. No Brasil, uma cidade homônima de MG celebrou com telão, bandeiras e muita torcida.
A estreia surpreendente de Cabo Verde na Copa do Mundo de 2026, com um empate contra a poderosa Espanha, mobilizou os moradores de uma cidade de mesmo nome, localizada no Sul de Minas, a quase 5 mil quilômetros de distância do país africano.
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Antes do jogo, a cidade mineira, que conta com 11,4 mil habitantes, ganhou ruas pintadas, bandeirinhas e até um telão para transmitir os jogos da Copa. Crianças e adultos se uniram para ‘adotar’ a seleção do país africano, que agora se tornou a segunda favorita no Mundial para os moradores, sendo a primeira ainda o Brasil.
A coincidência entre os nomes trouxe um clima festivo à cidade, transformando-a em uma espécie de ‘xará’ brasileira da nação africana. A conexão gerada pela Copa já faz parte do cotidiano dos habitantes, que frequentemente discutem a relação entre os dois lugares.
A atendente Mariele Mendes da Silva compartilha uma experiência que ilustra essa curiosidade. Durante uma viagem a Aparecida (SP), ela precisou esclarecer a existência da cidade mineira. ‘Conversando com uma mulher, ela perguntou de onde a gente era. Quando dissemos que éramos de Cabo Verde, ela quis saber se era Cabo Verde, na África. Nós explicamos que existe também o Cabo Verde de Minas, e ela ficou surpresa’, contou.
Nas escolas, a semelhança entre os locais se tornou tema de aprendizado. A estudante Lorena Batista dos Santos, de 10 anos, comentou sobre a importância do assunto nas aulas. ‘Eu acho muito legal, porque a professora já vem ensinando todo mundo sobre essa coincidência entre a nossa cidade e o país da África’, destacou.
Sua colega, Bárbara Mendes Dias, também de 10 anos, expressou sua surpresa ao descobrir que o português falado em Cabo Verde é diferente do utilizado no Brasil. ‘O português que a gente fala aqui não é o mesmo de lá. O deles é mais parecido com o de Portugal. Até caiu na prova’, relatou.
O embaixador de Cabo Verde no Brasil, José Pedro Máximo Chantre D’Oliveira, revelou que já conhecia a cidade mineira antes de assumir seu cargo. Em 2024, ele visitou o município para explorar a história local e discutir as possíveis origens do nome compartilhado. ‘O que mais me chamou a atenção foi a fraternidade das pessoas em torno desse nome. Nós somos cabo-verdianos e eles são cabo-verdenses, mas em torno da mesma designação’, afirmou.
A origem do nome da cidade mineira é motivo de debate entre os moradores. Segundo a cientista social Lidia Torres, a explicação mais popular está ligada a uma lenda sobre um cabo que teria brotado do solo e ficado verde. Outra versão associa o nome às pedras preciosas semelhantes às da África. Pesquisas históricas, no entanto, sugerem uma hipótese diferente.
‘Com base em fontes documentais, acredita-se que o nome da cidade tenha surgido por causa dos chamados ‘pretos Cabo Verde’, população negra escravizada ou livre que estava presente em grande número na região’, explicou a pesquisadora.
De acordo com Lidia, estudos mostram que mais da metade dos habitantes da região durante os séculos XVIII e XIX era composta por pessoas escravizadas ou libertas. Apesar da coincidência com o nome do país africano, a pesquisadora destaca que não é possível afirmar uma ligação direta entre a origem da cidade mineira e o arquipélago africano, que foi um importante entreposto do tráfico atlântico de pessoas escravizadas.
‘Não dá para afirmar que os escravizados presentes na região vieram de Cabo Verde. O que podemos dizer é que existe uma relação histórica entre a cidade e a população negra, escravizada ou livre, que ajudou a formar o município’, concluiu.



